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dezembro 8, 2007

Mènage

por poetamatematico

Noite alta, quase madrugada. Tínhamos saído cedo da festa da casa da Malu, pois tinha chovido o dia inteiro e só nós tínhamos ido. Cantamos parabéns, entregamos os presentes e voltamos. Pobre do marido da Malu, passou dias planejando a festinha e, na hora H, São Pedro não ajuda…

O carro passeava pela noite e ouvíamos o som inconfundível de Ella Fitzgerald. Vinho seco, tinto, vinícola gaúcha que eu bebia só, enquando as mulheres conversavam futilidades nos bancos da frente. Eram amigas há muitos anos, eu sabia. O carro parou no sinal vermelho e eu vi o olhar trocado, quase uma confidência. Virei o resto da taça num gole. O som da voz delas, misturado com o agudo do saxofone me causava arrepios. Já tinha bebido demais pra uma noite. Pra mau bebedor, uma taça é muito…

– Não queria ir pra casa agora – disse. É cedo ainda, não é nem meia-noite!

– Mas chove…

– Eu sei. E é na chuva que os postes de luz cantam melodias, as poças d`água fazem percussão e os mendigos, maltrapilhos, aquecem-se com aguardente barata. A noite é bela e melancólica. A noite chuvosa é tédio, ainda mais em Brasília. Mas temos de comemorar a primeira chuva depois de dois meses…

Não sei até que ponto as palavras eram delírio, mas eram palavras sinceras. Um pouco de tédio e um pouco de desabafo. Esperava realmente muito da festa da Malu. Todos os convidados decepcionaram…

– E como se comemora chuva, poeta? – Elas riram…

– Abrindo o vidro e deixando molhar os cabelos…

– A gente não pode simplesmente deixar o carro aqui e tomar banho de chuva. É perigoso…

– Que tal na área da tua casa? – Minha namorada fez deste pedido quase uma súplica – Você tá sozinha mesmo, tua mãe viajou e a área fica do lado de trás, bastante seguro. Sem falar que estamos a duas ruas de lá…

– E vocês não têm medo de gripe?

– Quem tem medo não merece a noite – eu disse – quem tem medo não merece nada, sequer um último suspiro, sequer a voz da noite, sequer o prazer da respiração…

Abri totalmente o vidro e deixei minha cabeça do lado de fora. A chuva parecia tão leve agora que era como se não batesse. Era fria, mas não doía. Chuva que lavava a pele e trazia vida. Chuva que servia pra acordar os sentidos.

Chegamos na casa dela. Bonita, ampla. Estacionado o carro, bebia o vinho pelo gargalo em grandes goles. Deixei a garrafa no chão e corri pra chuva, me molhando todo.

– Água me lave e me possua. Dá-me afago e segurança. Leve daqui o desassossego…

Elas deviam me achar meio maluco. Se bem que não, já estavam acostumadas com minhas excentricidades. Ensopado, corri pra elas num abraço. Elas se esquivaram, assustadas. Eu tremia…

– Tadinho! Vem cuidar do teu namorado, menina!

– E como é que a gente cuida de um poeta sem juízo? – namorada bebia do vinho. Os olhos eram chamas…

– Se quizer, eu mesmo cuido – amiga de velha data, retribuindo o olhar…

Eu sorri meu sorriso muito branco de dentes levemente tortos.

– E qual é tua idéia? Não há nada melhor que banho frio pra curar bebedeira…

Amiga da namorada me olha nos olhos. As mãos pousam delicadas sobre a pele das minhas mãos. Vejo meus dedos arrocheados, mas sinto os dela quentes e macios, unhas bem-feitas e brilhantes. Os lábios rosados, melados de vinho dizem mais do que a boca:

– O quê você diz, poeta?

– Quem diz é Eça: “sob o manto diáfano da fantasia, a nudez póstuma da verdade!”…

– E o que é a verdade, poeta? – olhar profundo, nos meus olhos. Olho para a namorada, pedindo uma resposta, um assentimento. Polegar entre os lábios, respiração alterada, mamilos quase rasgando a camisa de seda. Não podia ser só frio…

– Eu não sei dizer, mas eu te mostro…

O beijo que se seguiu foi longo, quase eterno. Beijo que logo era triplo, múltiplo. Beijo que logo eram mãos que se procuravam e encontravam peles onde antes só haviam roupas. Beijo que vira carícia pouco antes do banho, quente, acolhedor. Banho de chuveiro na noite fria, prenúncio de uma noite em claro…

Noite que só termina no outro dia, na cama, quando finalmente descansamos nos lençóis. E a última coisa que ela me murmura é docemente a mais esperada: te amo, ainda que me doa..

 


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