fevereiro 3, 2009

Mariposa

por poetamatematico

Gosto do equilíbrio delicado, tênue, aquela sensação entorpecedora no limite entre a serenidade e o caos. Sabe quando aparecem aqueles caras na televisão que equilibram pratos giratórios em cima de varetas e você fica tentando entender porquê eles não caem e se espatifam no chão? Vejo a mesma coisa quando, absorto, observo pendões de flores que oscilam docemente ao sabor do vento. Elas balançam juntas, mas num equilíbrio tão errático, tão excessivamente contraditório, que minha mente vacilante tende a ver ali o caos instaurado. Vê o desquilíbrio, a instabilidade. Vê que, aumentando uma variável no sistema dinâmico associado, todo a essência pendular do movimento se altera. Os pratos caem no chão.

Mas então desvio-me do foco da minha história. Ao contrário, perco-me divagando sobre o equilíbrio de órgãos sexuais secundários de giminospermas e as equações diferenciais parciais que modelam seu movimento. Recomeço, pois, já que a história merece ser contada do início.

É que ela apareceu meio assim. Não como flores que balançam ao vento, nem como pratos que rodam em cima de varetas. Ela apareceu com a incostância do resfolegar ritmado, delicado e errático das asas de uma borboleta. Borboleta ou mariposa? Mariposa. Era noite e ouvia as corujas.

Mau agouro, qualquer um diria. Mas eu não me perco pensando em idiotices como a mania assorbebadamente humana de dar significado a eventos tão casuais como a aparição de mariposas, gatos pretos e pios de coruja. Até porque acredito que hajam culturas onde corujas, gatos pretos e/ou mariposas são vistos com bonomia e belevolência, ou não. Pouco importa, afinal cultura só pode ser interpretada num contexto histórico-social específico. Resumindo, gato preto pode dar azar hoje, mas pode dar sorte amanhã. Mas de onde eu tirei este gato?

É que para mim ela era mais uma mariposa do que uma borboleta. É que ela não trouxe, pelo menos não no início, nenhum sentimento de candidez, leveza, simplicidade. Não experimentei qualquer sentimento minimamente bucólico ao vê-la pela primeira vez. Até porque arcadismo está fora de moda há muito tempo. É coisa do arco da velha.

E ela não se parecia em nada com as musas arcadistas que minha professora de português me obrigou a ler na escola. Parecia mais com outras musas que eu lia nesta época em revistas de muito menor reputação, mas de circulação, digamos, mais democrática do que os livros dos inconfidentes. Ela atiçava instintos que, socialmente, deveriam permanecer reclusos.

Não que fosse bonita. Mas aquela boca tinha algo de aterrador. Desequilíbrio. É essa a palavra. Quando a via conversar, longe de onde eu estava, não conseguia parar de observar como os lábios tapavam e mostravam os dentes brancos, a vermelhidão da gengiva. A boca bailava indecente demais para não ser notada. Distante demais para ser ouvida. Mas parecia tão próxima, tão excessivamente presente que era como se fosse me engolir.

Não tinha tido muitas mulheres até então. Tampouco tive muitas depois. Não que elas não me interessassem. Eu que não era lá muito interessante. Sempre soube que elas buscavam outro tipo de conquista e, portanto, resignava-me em ser um observador distante de conquistas impossíveis.

E foi assim ao longo daquele ano. Por mais que eu não quisesse (e no fundo eu sabia que queria) ela estava sempre próxima. As mesmas matérias na faculdade, amigos em comum, aparecia perto de mim na hora do almoço. Às vezes, inclusive, sorria para mim. Ela me notava? Ela me conhecia?

O tempo passou e o que eram apenas lábios tomou mais formas. O som da voz, suavemente estridente, mas bem mais agradável que o barulho das cigarras. O cheiro do perfume, que mudava quase diariamente. A forma indefinível dos cabelos, as unhas mal-feitas e roídas. Os olhos tristes e baixos que pareciam trazer em si muito mais do que apenas erotismo. Tudo parecia tender ao desequilíbrio. Mas se equilibrava.

E eu seguia tentando evitá-la. Iludido, achei que poderia manter apenas para mim este platonismo. Ora, lá ia eu caindo em mais um dos clichês arcadistas. A vida, ao contrário, faz tudo para que o encontro seja inevitável. E foi.

Eu era monitor de equações diferenciais. Sempre gostei desta matéria, mesmo antes da graduação. Ela tinha reprovado. Normal, mais de 60% das pessoas repovam pelo menos uma vez esta matéria. E, como monitor, meu trabalho era ficar enfurnado em uma sala de aula da universidade, esperando dar meu horário para sair. Ninguém nunca aparecia. Estava explicado os 60% de reprovação.

E então, numa quarta-feira ela apareceu na sala. Não se reportou diretamente a mim. Ao contrário, sentou-se lá no fundo da sala e tentava resolver sozinha os exercícios do Boyce. Eu sabia quase todos eles de cor. Ela não levantava os olhos. Nem eu. Era como se nos ignorássemos. Por duas vezes senti que ela queria fazer alguma pergunta, mas algo a deteve. Continuei parado, esperando.

Ruidosamente, ela guardou os materiais na bolsa e encaminhou-se para a porta.

- Alguma dúvida? – a voz fez muito ruído na sala vazia.

Ela ia escapar. Talvez nunca mais voltasse.

- Quer que eu te ajude a fazer a lista?

Dizer que sim era admitir sua própria incompetência. Por isso ninguém ia às monitorias. Ela devia estar muito desesperada. Continuou parada, em silêncio, a alguns passos da porta.

- Sabe porquê eu gosto de Equações diferenciais?

- Não consigo imaginar um motivo para alguém gostar disso. – ela finalmente disse algo. Não pude disfarçar um certo nervosismo. Meus dedos batiam ritmados sobre a mesa.

- Elas podem modelar quase tudo. As batidas do seu coração, o balançar dos cachos do seu cabelo, as interações entre as moléculas do seu corpo. O movimento errático das flores que balançam ao vento… – estalei os dedos – resumindo, a beleza e o caos.

- Não se pode modelar o caos.

- Ora, se não pudesse ser modelado, Deus não poderia ter feito. Mas o caos é muito mais fácil de se modelar do que a beleza.

Ela sorriu.

- Venha, vamos estudar.

E àquele encontro seguiram-se outros muitos. Duas vezes por semana nos juntávamos para resolver os exercícios do livro, ela e eu. Dava exemplos de aplicação, contava histórias de problemas interessantes, fazia tudo para que ela se motivasse pela matéria. Estava gostando daquela proximidade. O encontro era ansiosamente esperado, dia após dia.

Ela passou a gostar realmente da matéria. Trazia várias dúvidas, fazia perguntas interessantes a todo momento. Os olhos dela brilhavam quando finalmente resolvia um problema. Pela primeira vez em toda minha vida percebi que poderia ser útil ensinando alguma coisa a alguém.

Mas ao mesmo tempo que a proximidade era boa, era também dolorosa. As noites estavam cada vez mais difíceis de suportar.

Até que, um dia, as coisas ficaram diferentes. Era junho e ventava muito. Estava frio. E enquanto pensávamos na solução de um problema, veio o silêncio. Eu não me concentrava, nem ela. Concentrava-me em olhar para o livro, para não ser atacado por outros pensamentos.

- Porquê você não me olha nos olhos?

A pergunta veio fulminante. Balbuciei algumas palavras desconexas. Ela calou-me com um beijo.

- Vocês nerds pensam demais.

Eu estava nervoso, vermelho. Não dizia coisa com coisa. Fui pêgo desprevenido, admito.

- Adoro esse seu jeito.

- Que jeito?

- Tímido.

Naquela noite fizemos amor pela primeira vez, antes que eu pudesse dizer qualquer coisa. Foi a noite mais espetacular de toda minha vida. Tudo o que eu sempre esperei estava se realizando em minha frente, com aquela mulher-mariposa que eu tanto desejara.

E, na manhã seguinte, o quarto do hotel deixava entrar a luz do sol e eu pude ver seu corpo, repleto de cicatrizes. Não fiz qualquer pergunta. Fingi dormir mais um pouco. Ela me acordou com um beijo.

- Obrigada.

Eu apenas sorri. Tinha medo de falar algo estúpido ou fazer alguma piada de nerd. E lembrei-me dela sempre assim, sorrindo nos meus braços.

Mas as mariposas são efêmeras. Vivem pouco. Eu soube apenas tempos depois que ela lutava contra um câncer terminal. Maria morreu sete meses depois, numa tarde ensolarada de janeiro, em sua cama, cercada de amigos. E eu prometi não derramar uma só lágrima.

E eu cumpri esta e todas as outras promessas feitas nesses sete meses. Só me arrependo de ter perdido tanto tempo antes deste primeiro e redentor beijo. Podia ter sido muito mais tempo.

E, finalmente, gosto tanto do equilíbrio delicado e inconstante, pois isso me faz lembrar, a cada segundo, o quanto vale a pena estar vivo. E o tanto que me ensinou a menina de olhos tristes e unhas roídas, que mesmo à beira da morte teimava em aprender algo novo, contra todas a expectativas.

dezembro 7, 2008

mãos

por poetamatematico
Mãos

Mãos

Eram três e já se conheciam há muito tempo, mas eram só amigos. E era sábado, sessão de cinema na casa dela. Cinema, pipoca, algumas gargalhadas. O filme acabou e continuaram conversando e bebendo cerveja. Ligaram o som, contaram piadas, fofocas, as trivialidades de sempre. Riram muito.

Horas depois, estavam cansados e levemente bêbados. Ela sentou-se entre eles no sofá e ficou totalmente à vontade. Silêncio de elevador. Cansada, deixou a cabeça pender sobre o ombro do da direita: Carlos.

Silêncio de elevador.

Diego e Carlos se entreolharam. Um não sabia o que o outro estavam pensando, mas havia um certo clima no ar, uma espécie de cumplicidade. Era aquela comunicação que os homens têm uns com os outros e que as mulheres invejam.

Ela se aconchegou ainda mais no ombro dele. A boca entreaberta, carnuda, deixava entrever os dentes. E ela respirava num ritmo tão…

Diego e Carlos sorriram. Diego fez um sinal imperceptível, um leve abano de cabeça, que Carlos interpretou como assentimento. Este acariciou o queixo dela e colocou as mãos entre os cabelos. Aquela respiração era tão…

Silêncio de elevador e ela achava estranho aquele carinho leve, delicado, mas insistente, perspicaz. Embora quisesse protestar, deixou-se levar pela mistura perigosa entre o álcool e a excitação. Sentia uma certa dormência, um torpor entre a embriaguês e a completa sobriedade. Perfeito para fazer as piores loucuras e eximir-se depois.

E ela sentiu a mão de Diego na sua coxa esquerda. Mão de homem, forte, descuidada. Mão de proletário que virtuoso caminhava com uma leveza inperceptível pela pele descoberta. E embora quisesse protestar, deixou-se levar pelo silêncio de elevador, deixando que ele percebesse os pêlos eriçados pelo arrepio.

Deixou-se levar também pela mão de Carlos, que conduzia sua boca para a dele. E esta mesma mão, delicada, bem-cuidada, burguesa, andava agora pelas suas coxas com força, como exército em marcha, tomando de assalto os campos.

Quatro mãos e duas coxas, seis lábios, uma boca que agora se dividia entre duas outras, sentindo salivas, sendo a fronteira entre dois mundos diversos. Ela passeava entre uma e outra e o silêncio de elevador é substituído agora pelos barulhos quase inaudíveis de respirações, estalos de beijos, sons de línguas que se encontram.

As mãos passeando nas coxas, caminhando unidas, poderosas, em direção ao encontro das coxas. E no encontro destas duas frentes de batalha, unidas num armistício, dividiram entre si o campo, agora descoberto, onde deveria se travar a batalha. E eram mãos que se sucediam, solidárias, dividindo os espaços, às vezes penetrando juntas no mesmo regaço, às vezes se complementando. E a dona das coxas, agonizava em outro tipo de torpor, mais imediato, intenso.

Entregue, a dona das coxas colocou suas coxas entre outras coxas e pensando em várias coisas entregou-se ao duplo amor sobre o sofá da sala e agonizou tantas e tantas vezes, que dormiu semi-morta entre o proletário e burguês no chão, em frente à tevê. E nesso triplo sono, três mãos humanas descansavam juntas, tão juntas, que não se sabia qual das três era dona de cada dedo.

Foi uma batalha do tipo que Marx jamais sonharia.

novembro 25, 2008

Supresa!!!!!!!!

por poetamatematico

Dia comprido, cansativo, mal esperava para chegar em casa. Noite, tudo vazio no andar de baixo. Tomei uma dose de uísque puro e deitei no sofá, jogando os sapatos em um canto. Concentrei-me em ouvir apenas o som da minha respiração. Nessas horas compensava comprar esta casa num condomínio, longe da badalação do centro. Silêncio. Exceto por aquele som particular…

Que seria aquele som?

Eu conhecia… Coltrane? Ou seria Joni Mitchel?

Subi as escadas vagarosamente. O som ia se tornando mais nítido, próximo. Joni Mitchel, Blue, tocando baixo no vinil, atrás da porta entreabaerta. Adoro este CD, mas me soa tão triste.

Do quarto sai um cheiro conhecido: Almíscar. O álcool, a música, tudo estava fazendo efeito.

- Amor?

- Não entre ainda! Tenho uma surpresa…

Esperava ansioso do lado de fora. Minha imaginação fértil viajava. Ela sabia que este jogo me deixa maluco.

- Não vou agüentar esperar muito…

- É por isso que você não vai esperar mais nada.

E ela apareceu deslumbrante, vestida apenas de uma leve camisola branca de seda, com uma garrafa de champanhe na mão.

- Estamos comemorando alguma coisa? – tomei-a nos braços.

- Talvez…

- Seja lá o que for eu esqueci…

- Tudo bem, estou acostumada. – logo em seguida, ela emendou – gostou da surpresa?

- Muito.

- Hum, ela está apenas começando…

Falou isso próximo ao meu ouvido e me puxou pela camisa. Atravessamos o corredor, a varanda até o quarto de hóspedes. Paramos em frente à porta.

- Abra, a surpresa está aí…

Sorri, zombeteiro. Que ela estaria tramando? Abri a porta e fiquei estarrecido. Uma mulher linda e quase nua, amarrada de quatro e amordaçada na cama. Em volta dela vários chicotes, prendedores, algemas, vibradores e toda sorte de brinquedos. Fiquei estático, sem saber o que fazer.

Minha mulher começou a passar as mãos pelo corpo dela enquanto dizia:

- Então amor, esta aqui é a Sara. Diz oi pra ele Sara!

A mulher procurava por mim, visivelmente assutada.

- Ela queria brincar comigo. Só comigo. Eu pensei que seria injusto não dividir ela com você então trouxe ela pra cá. Amarrei, vendei e guardei ela todinha pra gente brincar bastante. – dito isso deu um tapa alto na bunda da mulher, que soltou um gemido.- Caladinha…

E continou:

- Gostou da surpresa?

- Muito…

- Então vem aproveitar, vem. Ela é toda nossa…

- Não vou deixar passar nenhum suspiro…

E nos beijamos longamente antes de nos entregarmoà loucura.

novembro 22, 2008

Pérola negra

por poetamatematico

E ela me jogou na parede.

- Lagartixa… – falava no meu ouvido, voz embargada, hálito de álcool e cigarro.

- O quê? – muito barulho, mas eu tinha ouvido muito bem.

- Lagartixa surda.

- Lagartixa?

- É! Você é branco que nem barriga de lagartixa. – parou por um instante antes de continuar. – Sabe, eu gosto mais de café, mas hoje até que um leitinho caía bem.

Sorri.

- Você acha? – ela segurava meu queixo. A outra mão apertava minha bunda. Mais alta que eu, ela me fitava com olhos penetrantes, inquisidores.

- Tem de ver. Comigo só se passar no teste de qualidade…

- E que teste é esse?

- Eu te mostro agora…

Ela olhava nos meus olhos, respirava com força, segurando meu queixo. Me deu um tapinha na cara antes de me beijar na boca com sofreguidão. Lábios grossos, corpo forte. Que mulher…

- É esse o teste?

- Bobinho, ele nem começou.

E ela começou a beijar a boca, o rosto, os olhos. Eu ficava angustiado e excitado com aquela situação. Ela me dominava completamente, fazia comigo o que queria. Beijou pescoço, nuca, orelhas. A pele negra contrastava com a brancura da minha pele. Unhas vermelhas, cabelo alisado e pintado de loiro. Vestido curto, colado no cortpo.

- Sabe que eu adoro essa sua cara de safado? Safado…

A mão deslizava sobre minha barriga.

- Que barriguinha, hein? Barriga de homem, cara de menino. Vamos ver se você é menino ou homem… – outro tapinha na cara.

Ela não se importava nem um pouco de estarmos no meio de um baile, cercado de gente por todos os lados. Talvez aquilo a deixasse excitada. Desceu a mão para dentro de minhas calças e me acariciou com força.

- Hum. É homem mesmo… Olhando pra sua cara nem parece…

Isso mexeu com meus nervos. Ia empurrá-la. Ela me segurou.

- Quer dar uma de machinho na minha quebrada, branquelo? – disse bem perto da minha orelha – aqui sou eu que mando, entendeu?

Assenti com a cabeça.

- Quem manda?

- Você…

- Não escutei… – a mão me acariciava, deixando maluco.

- Você, manda o que quiser, faz o que quiser. Sou todo teu.

- Assim que eu gosto – e acentuou bem cada sílaba – la-gar-ti-xa.

Minha respiração estava alterada. Ela sabia exatamente como fazer aquilo.

- Lagartixa é assim, na parede.

- Ah. É? – Segurava a nuca dela com força. Queria tomá-la ali, na marra, na frente de todo mundo.

- Fica quietinho.

O funk rolava solto no salão apinhado de gente. Estávamos num canto escuro, mas podia ver dezenas de outros casais se agarrando perto de nós. Dançavam o ritmo quente de forma que não dava pra saber se era dança ou sexo. Comecei a rebolar, extasiado. Ela se ajoelhou, abriu o zíper e me engoliu, sofregamente, com uma fome que eu nunca tinha visto.

Eu tremia, não conseguindo me conter. Um casal de gays me viu e sorriu zombeteiro. Olhei pra direita e vi uma mulher sendo agarrada por dois homens. Os três dançavam unidos e se acariciavam mutuamente. Ela segurava os dois pelos pênis, visivelmente alterada.

Os músculos da minha perna se contraíam, ela arranhava minha barriga, deixando marcas vermelhas por onde passava. Estava muito bom.

Parou e veio falar no meu ouvido.

- Quem olha pra tua cara nem imagina…

- Tu ainda não viu nada…

- Tu fala muito. Tá na hora de começar a fazer mais. – outro tapa – vai ter de mostrar muito serviço se quiser meter nessa cachorra.

- E a cachorra tá preparada?

- Quase.

- Então deixa comigo. – joguei ela na parede, de costas pra mim, minhas narinas inundadas pelo cheiro de suor e sexo – preparar cachorra é comigo mesmo…

- Deixo, Lagartixa, deixo. Agora é sua vez de mostrar serviço…

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Para você, guapa…

novembro 2, 2008

por poetamatematico

E ela venda meus olhos. Sorrio. Gosto desse jogo, sou conivente. Deixo que ela me leve onde quer.
- Não se mexa…
Obedeço, ansioso.
- Abra a boca.
Abro, ávido, curioso. Sinto o cubo frio de gelo que passeia pela minha boca, enquanto ela senta sobre o me colo. Nos beijamos, sofregamente, o cubo passeia pelas bocas, misturando cheiros, salivas, resfriando os lábios que se unem pelo calor abrasador dos corpos.

Ela tira o gelo, sai do meu colo e eu permaneço, lábios abertos, língua de fora, esperando o alimento. E ele  vem na forma de uvas, morangos, ameixas, frutas que simulam, imitam os gostos desejados.

E então, inesperadamente ela pede calma. Obedeço e, obediente, deixo que a língua tateie em busca do novo gosto, da nova textura. E então, surpreso, sinto aquela pequena elevação, arrebitada, saliente, conhecida. Macio, embora proeminente, o mamilo se destaca, enquanto acaricio-o com os dentes, mordisco, controlando minha fúria, minha voracidade e raiva.

E quando ela me deita sobre a cama, ainda vendado, e explora delicadamente minha nudez, deixo estar, relaxado, solene, à espera do banquete que me saciará todas as fomes, todos os desejos, todas as vontades…

julho 4, 2008

por poetamatematico

Após o fim do filme:
- E quem você queria ser?
- Ghandi…
- Porquê Ghandi?
- Porque é preciso ter muito amor à vida para dedicar a vida inteira a amar os outros.
- …
- E é de amor que falamos, não é?
- Amor sem palavras, de todas as formas…
- Amor….

junho 20, 2008

Paris

por poetamatematico

As pernas passeavam rapidamente pela rua. A bolsa bem protegida sob o braço. É preciso ter pressa. Quanto tempo faltará? O céu está negro. Deve chover em breve. Gostaria de ver o céu agora, mas não era possível.

Eram tempos difíceis estes. Hitler estava bem perto. Por toda Paris havia pessoas fugindo. A derrocada é inevitável. Que seria de Paris?

Parou num café e acendeu um cigarro. O garçom, impecavelmente vestido, deixou o menu. Ela pediu o vinho e parou, observando a cidade vazia. Tristeza. Aquilo não era Paris. Maldito Hitler.

Um menino mirrado passou por ela rapidamente, deixando um pequeno bilhete. “Au Nord”. Ao norte. Que seria? Calmamente, olhou para lá. Um mulher, altiva, vestida totalmente de negro, um grande chapéu que lhe cobria parcialmente o rosto. A estranha mulher levantou-lhe a taça de champagne. Parecia sorrir…

Um sorriso amarelo, escondido atrás de um rosto impassível. Justine levantou-se e foi até a estranha mulher. Perto o suficiente para ver os olhos, negros e profundos.

– Isto não é Paris, ela disse. — Brindemos aos alemães.

– Não brindo a nazistas.

– Você não entende, não é? É inevitável… O curso da História nos levou a isso. Sente-se, ainda há champagne. Há que se aproveitar…

Justine sentou-se e continuou a fumar o cigarro.

– Sabe qual é a parte boa de estar perto de ver o Apocalipse? – Disse a mulher de negro.

– Não…

A mulher olhou-a nos olhos.

– Tudo é permitido.

Justine sorriu, tocando de leve o queixo macio e branco da outra mulher. Agora podia reconhecê-la.

– Então, aproveitemos, Anaïs, Aproveitemos…

abril 13, 2008

Áqueles Lábios

por poetamatematico

 

A boca nua, indecente, farta de lábios grossos e avermelhados pulsa no suspiro involuntário da respiração, produzindo nuvens de feromônios por onde passa. Meu corpo feito, imita o ritmo anunciado, dança na noite, assoberbado, vegeta no limite entre a razão e o ensurdecimento.

Deste modo, eu, testemunha errante do rastro indefectível daqueles lábios grossos e avermelhados, sucumbo ante a textura aveludada, ao toque macio e delicado que eles fazem nos meus próprios lábios. E todo eu saio de mim, expiro, transpiro o odor erétil das minhas sensações inescondíveis, pronuncio entre os outros corpos que dançam na noite o vigor e a sagacidade de estar tomado, completamente entregue aos desejos ardentes da dona daqueles lábios.

Lábios nos lábios, mãos nas mãos, corações febris, seguindo as ritmadas batidas, buscando o entendimento, ultrapassando o êxtase, o nirvana, o total, absoluto e indescritível desprendimento.

Por isso mesmo, quando descanso da noite eterna que dura os poucos segundos em que lábios e lábios, mais que lábios, juntam os lados e fazem sentido onde antes brotava o desentendimento. Produzo endorfina, adrenalina, cocaína…

Retratos espontâneos tirados no final da rave…

abril 12, 2008

Oito coisas que quero fazer antes de morrer…

por poetamatematico

Seguindo um meme da Urban, segue aqui uma lista das oito coisas que quero fazer antes de morrer. Bem, nem tudo é muito erótico, mas todas as coisas são tremendamente significativas pra mim:

1- Fazer um gol de placa no Maracanã lotado!!!

2- Derrubar um ditador sanguinário num país latino-americano ou dar minha vida pela liberdade de um povo oprimido;

3- Aprender a surfar (Em Brasília é meio difícil, mas existem os lendários surfistas do lago Paranoá, rsrsrsrsrsrs)

4- Curar meu joelho para que eu possa dançar, escalar montanhas e jogar futebol…

5- Ter um lugar só meu, pra onde eu possa fugir de vez em quando só para ver as estrelas…

6- Pular de pára-quedas;

7- Ser um escritor, nem que seja de um único livro solitário, mas que seja todo meu, minha alma, meu sangue e meu legado…

8- Casar por amor e não me arrepender…

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Taí a lista, meio piegas, admito, mas são as minhas prioridades pros próximos anos. Tem coisas mirabolantes, admito, que nem essa idéia de fazer gol de placa no maracanã lotado, mas eu sou assim, um pouco mirabolante e um pouco pé no chão. Se alguém quiser me ajudar a realizar alguma delas (principalmente a parte do joelho, que tá foda), manda aí um sinal de fumaça.

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Em tempo, vão aí os oito contemplados em responder o Meme:

1- Mamy

2- Señorita P.

3- JuJu de Blu

4- Neutron

5- Menina Eva

6- Flora

7- Má

8- …

março 30, 2008

Dueto

por poetamatematico

Quando Clara chegou em casa naquela noite de novembro nem desconfiava do que acabaria se passando. Era sexta-feira e a semana tinha sido mais pesada do que o habitual, pois ela tinha voltado de uma viagem a trabalho. Devia voltar só no sábado de manhã, mas conseguiu uma conexão de avião de última hora.

No quarto, tirou o casaco, deixando-o cair sobre o chão, despiu-se completamente, amarrou os cabelos em coque e foi tomar um desejado banho. Estava frio, lá fora garoava leve, fazendo barulho nos telhados. Não viu seu marido. Ele devia ter emendado o trabalho com um happy hour.

A água quente lhe fazia bem, relaxada. Não conseguia explicar por quê, mas sentia uma grande excitação. O toque das mãos em seu próprio corpo produzia calafrios. Podia sentir os bicos dos seios duros, sensíveis, reagindo delicadamente ao deslizar macio da água. Este pequeno sentimento tornou-se quente, acolhedor, tomando conta de seu corpo. A boca abriu-se num suspiro, quando ela tocou a própria nuca. A pele arrepiada, pontilhada de pontos solitários: pequenos vulcões ativos, prestes a entrar em ebulição.

Pensava em Mário, seu marido. Eles sempre se entenderam tão bem. Agora, depois de mais de uma semana longe, ela sentia um grande vontade de ser possuída como só ele era capaz.

Uma de suas mãos agora deslizava febrilmente no meio das suas pernas, toque delicado, sensível, buscando os recantos escondidos do seu corpo. Dedos que logo invadiam e provocavam intensas e involuntárias contrações. Ela gemia docemente, sentindo de olhos fechados os efeitos de seu próprio prazer.

Repentinamente ouve vozes, barulho de copos tilintando, gelo… Fecha o chuveiro para escutar melhor. O que poderia ser isso? Uma das vozes é do seu marido, a outra, desconhecida. Sua curiosidade cresce enquanto seu coração dispara, a outra voz é feminina. Chuveiro fechado, seu corpo ainda recoberto de espuma, pés molhados escorrendo sobre o tapete do quarto, o som das vozes se torna mais nítido, risos, silêncios… mais silêncio. Sua vontade é sair correndo e entrar na sala, mas controla-se e pé ante pé dirige-se ao corredor, já ouvindo alguns sussurros, gemidos, sons abafados… Sua respiração acelera, ela sente-se num misto de excitação e raiva. Faz frio, mas seu corpo ferve.

Num determinado ponto o corredor se alarga e forma um hall, onde ela coloca-se estrategicamente, vendo e não sendo vista. Mário está parcialmente nu, ainda de camisa e o laço da gravata desfeito serve de coleira que é puxada por uma mão de unhas vermelhas, só o que ela vislumbra da outra pessoa. Move-se mais à frente louca de curiosidade, percebendo em si uma estranha excitação.

Ela sente uma raiva imensa, mas mantém-se imóvel, ouvindo cada parte dos sorrisos, dos beijos estalados. A mulher desconhecida tira a camisa de seu marido, arranha seu peito enquanto beija-o com volúpia, dizendo coisas desconexas. Depois disso, joga-o com força sobre o sofá, colocando a sandália de salto sobre sua barriga.

- Beije meu pé.

Ele faz uma cara de contrafeito e ela lhe estapeia a face, ruidosamente…

- Agora…

Mário, o marido de Clara está entregue a uma grande excitação. Beija o pé, chupa cada um dos dedos delicados e bem cuidados, submisso, entregue. Ela tira o vestido longo com um movimento rápido e certeiro, permanecendo vestida apenas com uma calcinha minúscula, transparente. Clara sente um prazer inexplicável ao ver aquela cena. Seu marido era apenas um brinquedo para aquela mulher maravilhosa. Seu corpo pulsa de desejo. Deixou então a toalha cair e contemplou-se inteiramente nua sobre o chão frio de azulejos. Seus dedos ágeis tocavam seu clítoris, enquanto ela observa a mulher desconhecida cavalgar ruidosamente seu marido, usando a gravata como uma corrente em que ela domava seu cachorrinho.

Clara aperta a mão com suas pernas, arqueia o corpo e tenta conter os gemidos. A excitação é grande e ela explora-se profundamente, enquanta aperta os próprios peitos. Pensa naquela mulher, seu charme, a boca grossa de lábios esculpidos, as sobrancelhas bem-feitas, os seios volumosos, as mãos delicadas contrastando com o jeito forte, soberbo de mulher decidida. Tudo que ela mais queria de si mesma. E ela punha-se de olhos fechados, respiração alterada, sentindo os pequenos espasmos que antecedem um gozo maravilhoso. E, quando ela abre os olhos, para ver o corpo nu daquela mulher que lhe causou tanto tesão, viu que seus olhos e os dela tinham-se encontrado. Tinha sido descoberta…

Clara, mesmo paralisada de medo, lateja de desejo. Por alguns instantes elas encaram-se para em seguida a loura ignorá-la ao mudar de posição numa provocação, ajoelhando-se entre as pernas do seu marido, encarando-a cinicamente ao chupá-lo com desmedida dedicação, engolindo-o inteiro, lábios e língua relaxados deslizando de cima a baixo numa repetição enlouquecedora. Mário larga-se sobre o sofá gemendo palavrões, olhos que ora se fecham em delírio e ora abrem-se como um voyer admirado, enlouquecido.

Tomada por um ímpeto, Clara aproxima-se do sofá colocando-se ao lado da desconhecida, partilhando o pau do seu marido que se oferece completamente rijo, pulsante. Recomeçam a chupá-lo juntas, uma deliciosa mistura de línguas e pau, o gosto dele, o delas, a saliva morna que se mistura e escorre junto a mãos que deslizam e apertam suavemente.

Mário abre os olhos novamente confuso, observando maravilhado a cena onírica à sua frente. Fantasia, delírio? Sua amante e sua mulher compartilhando seu pau, esquecidas, olhos fechados entregues ao desejo. Aos poucos soltam-no e entregam-se a um beijo febril, longamente saboreado, agarradas, famintas, seios eriçados, bocas coladas, corpos suados que brilham. Caem uma sobre a outra, se esfregam, mãos que buscam, se exploram mutuamente, línguas sedentas que provam, descem, chupam, lambem. Louco delírio… Enquanto diante daquela cena inacreditável, Mário delirando, masturba-se descontroladamente, explodindo de tesão.

E, na noite fria e solitária, os três corpos misturam-se sedentos, de tal forma unidos que nem se sabe se há começo ou se há fim. De certo mesmo só um desejo ardente, urgente, imprescindível que toma tudo, viceja. Desejo de pesadelo, suplício, que só se aplaca no gozo, no gosto dos gostos misturados.

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Senhoras e senhores visitantes deste blogue. É com orgulho que anuncio que este texto foi escrito delicadamente pelas minhas mãos e de um dos maiores talentos da internet, a poderosíssima Urban. Espero que vocês gostem das novidades!!!

Abraços a todos!

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