Ópio

por poetamatematico

Estava resfolegante. Os olhos muito abertos, pupilas dilatadas, olhando para o teto. Parou para ouvir a música: Coltrane: Russian
Lullaby. O cheiro de ópio em todo o quarto. Chovia. Não tinha fôlego. A cabeça ainda estava cheia daquelas sensações. Endorfina. Queria mais, precisava de mais, mas o corpo não agüentava. Tentou levantar-se, mas estava zonzo. Podia sentir os cheiros, o suor empapando o lençol. Russian
Lullaby. Ela estava ao seu lado, observando-o. Quem era? Não sabia mais. Não sabia de nada, apenas estava interessado em conter os próprios sentidos. As pernas ainda tremiam. Foi bom. Ele podia senti-la. Ela bebia vinho. Chateau Villemaurine. Ela o observava. Ele tinha vergonha, estava nu. Perfume: Eau Sauvage, Dior. Como ele sabia? Tudo estava confuso. Tentou virar-se. Não podia. As mãos tremiam, as pernas estavam incontroláveis. A respiração começou a desesperá-lo. Quem era ela? Ele não sabia. Onde estava? Não sabia. Podia senti-la. Ela chegou mais perto, muito perto. Viu um brinco. Ouro e ametistas, um trabalho muito refinado. O nariz dela tocou de leve a pele do rosto dele. Estava frio. A mão passou pela barriga. Ele tremeu. Ela gostou. Marcas de expressão. 40, 50? Não sabia. Cheiro de ópio. Vinha dela. Ela sorria. “Um menino…”. A respiração acalmou-se. Ela também estava ofegante, mas exalava autoridade. Ele se submeteu. Cabelos negros com mechas grisalhas, pele firme, o tubo do naguilê na boca. Tragou mais uma vez. Arrepiou-se. Sorriu. “Um menino…”. Deitou-se ao lado dele na cama, e o beijou, primeiro na face, depois no pescoço. Ele tremeu. “Um menino arredio…”. Arranhou o peito dele com as unhas bem-feitas, brincando com os pelos da barriga. Segurou-o, com firmeza. Ele tremeu. “Você quer, não quer?”. Ele fechou os olhos. “Responde, meu anjo”. A voz era doce, suave. Ela apertou. Ele mordeu os lábios, mas não disse nada. “Eu posso ser má, eu posso ser boa, você decide…”. Silêncio. Ela estapeou-o, na face, violentamente. A respiração, de novo, ofegante. Queria revidar, queria bater nela. Conteve-se. Ela sentou-se sobre ele, olhando-o nos olhos. Ele tentou dizer alguma coisa. Ele colocou o dedo entre seus lábios. “Shhh…”. Estapeou-mais uma vez, duas, três, com as costas da mão. Ele gemeu. Ela roçou a língua entre as feridas. “Isso, fique quieto… um bom menino…”. As mãos sobre o peito. Beijou-o. Corpo quente, cheiro bom. Levantou-se rapidamente e deu-lhe um violento chute, jogando-o da cama no chão. Ele ficou, de bruços, a barriga encostando no chão frio. Ela beijou a nuca, arranhou as costas e sentou-se nas costas dele, puxando o pelos cabelos. Ele sentia dor. Ela gostava. Segurava a nuca com uma mão e a nádega com a outra. “Você é meu, sabia?”. Ele tremia, um misto de tesão e medo. Certamente, mais tesão do que medo…

 

 

 

6 Responses para “Ópio”

  1. Adorei ok? Se eu soubesse que esse blog existia eu teria vindo lê-lo antes. Muito bem escrito, cara, consegui imaginar tudo certinho. Essa coisa meio sadomasoquista, bem rawr, acho demais. Eu escrevo uns textos assim, mas morro de vergonha de postar e nem são bons ): Enfim, vou ler os seus, quem sabe eu não aprenda, haha? Beijão!

  2. uma brincadeira perigosa e excitante…

  3. Cara, adorei a sua escrita (meio cinematográfica, me lembrou aliás uma passagem do filme Apocalipse Now Redux) e as alusões a Coltrane e etc.

    Também escrevo contos eróticos, pinta lá !

    Falou.

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