fevereiro 3, 2011

Samba em homenagem

por poetamatematico

She hold me

And I say

She loved me yesterday

And I couldn’t

Wait anymore

E eu fecho os olhos pra sentir apenas o perfume e ouvir o som. Não quero mais nada. Quero que os sentidos todos sejam dela, mas não todos ao mesmo tempo. Quero me embriagar com um de cada vez. E relaxo…

Relaxo porque o som me consome. Os compassos se misturam, as palavras me atordoam. E a sinto, perto, muito perto, a batucada. E eu sei que ela está ali, a poucos passos e lenta, de olhos fechados, ela dança o samba só pra mim. E eu sei disso, e justamente por causa disso me entrego.

Entrego e imagino as pernas, os pés movendo-se no ritmo quebrado e cadente, mesmo lento. E vejo que o samba é isso, o samba invade, o samba doma, o samba suspira poesia. E deixo me perder pelos suspiros.

E abro os olhos. E você dança com os cabelos os braços, pernas e corpo numa mistura mágica. Teu ritmo me domina. Teus olhos quando me olhas, um tanto quanto dissimulada, um tanto quanto desejosa e muito, muito mais confiante do teu impacto sobre mim. E me sinto frágil.

Mas deixo-te tomar conta de mim. Enquanto danças eu não sou, apenas te olho. Enquanto danças eu espero, ardentemente que me deixes tocar-te. E cada parte de ti é um pedaço que quero, um recanto esperando pelo meu toque, pelo meu beijo, pela minha língua desejosa. Mas espero. O tempo é teu, o samba é teu, a noite é tua, sou teu, completamente, por toda a noite e muito mais.

 

janeiro 30, 2011

O que eu faria se vc estivesse aqui agora…

por poetamatematico

Se você estivesse aqui agora, ah! Eu sei bem o que eu faria… me empanturrava de você, te conquistava, seduzia, te domava, toda minha, tu serias. Se você estivesse aqui agora, eu começava com teus olhos, olhando teus olhos profundamente. Estudando sua íris, suas pálpebras, decorando cada parte pra que não me esquecesse nunca.

Se você estivesse aqui agora eu beijaria tua boca, mas com urgência, com volúpia, para que não houvesse arrependimentos por ter pouco. Se você estivesse aqui agora meus beijos não seriam só bocas, nem só lábios, nem só línguas. Meus beijos seriam meu corpo no teu corpo, juntos, unidos, pulsando juntos e dividindo sensações indescritíveis. Se você estivesse aqui agora, minhas mãos seriam mais que mãos. Seriam meus sentidos sendo aprofundados, a sensação do toque, alimentando outras sensações e produzindo outros sentimentos tão profundos sentimentos que não caberiam no quarto, na casa, na cidade, no céu, mas teriam a medida exata do texto, das sinestesias, das alegorias cândidas que as palavras mudam em cada regaço.

Se você estivesse aqui agora, sua nudez não viria rápida ou exigente. Viria primeiro a contemplação de cada parte exposta, seja o pescoço, o braço, a perna, o colo… cada nova parte desfraldada seria um novo conhecer, um novo detalhe descoberto, uma nova forma de ver e sentir: um novo tudo. E quando houvesse a nudez, ah! Eu lhe tocaria as costas com as mãos, com a boca para que sentisses minha barba de dois dias… seguraria a tua nuca entre as mãos com força, para saberes que és minha, naquele momento serás minha e nada podes fazer para fugir…

E te entregarias. E ao entregar-te, mostraria-me os seus, do apetitoso tamanho que mais me apetece. Grandes o suficiente para caberem nas mãos, serem tocados hora com um carinho quase insensível, hora com uma fome tão grande e tão imediata que minha boca lhe devoraria antes que disseste que me permites.

E sem permissão te beijaria o colo, o ventre, a boca mais uma vez. E sem permissão te beijaria entre as pernas e esse beijo, muito mais do que beijo, seria sentido por você como uma tempestade que bate nas janelas do teu cérebro, balança todos teus sentidos. E te sentirias confusa por teres fome de mais deste saboroso beijo, mas ganância por outra coisa mais. E suas unhas desejosas feririam minha carne e, sanguinolento e submisso, não me furtaria a dar-te mais e mais prazer quando minha boca e tua outra boca de vários lábios se encontrarem…

E tu suplicarias. E eu atenderia. E atendendo, deixar-te ia nos conduzir. Sobre mim vagarias como se cavalgasse no céu. Deixar-te-ia ser uma amazona sobre mim, corcel maduro. E minhas mãos cobririam os teus seios. E tuas mãos no meu peito seriam como rédeas e a me conduzir. E eu te ajudaria. E quando suplicante pedisses mais e mais, eu te daria tudo, tudo, com todas as minhas forças. E te entregarias, num misto tão suntuoso de sensações que por um instante perderias o espaço que existe perto de ti… e repousarias…

Mas não, possuo-te agora e deitas submissa. Respeito os primeiros minutos em que, rapidamente te recompões. E num ritmo cadenciado e crescente, seria eu a desfrutar do prazer de te dar mais prazer do que imaginas que terias. E, com os olhos muito abertos pelos novos espasmos que sentirias, gemes. Agora não há nada que segure tua boca e teus gritos podem ser ouvidos de longe. Seu corpo, coberto de suor pede mais, pede tudo, e te dou tudo. E vago na velocidade suicida e incontrolável, tão intenso que perco-te de vista.

Não estás mais ali. Sou eu. E nos perdemos. Sinto agora meu prazer que aumenta suavemente. Quero-te e dou-te o que pediras. Queres ser meu prazer e uso-te para o meu prazer. E ficas de quatro, ainda mais submissa. E deliro. Não que seja simples, descrever, apenas a sensação de possuir-te sem amarras me domina. E vou, errante e solícito, incandescente, enquanto suplicar por mim. E vou, mais e mais. Angustiante, o prazer tão próximo, tão necessário, tão urgente. Busco-o com os olhos fechados, sentindo minha virilidade em ti tão forte que não me agüento. E jorro…

E desfalecemos os dois, de olhos abertos. Agora é a melhor hora. A endorfina faz seu efeito nos nossos cérebros. Por alguns instantes não sabemos bem o que sentimos, nem descrevemos bem o que sentimos. Nestes instantes estamos vulneráveis, entregues, e por isso nos abraçamos.

E tu me beijarias, agradecida. E tu me dirias palavras bonitas e eu diria outras tantas. E desfaleceríamos, tão colados um ao outro como nunca se viu… até a próxima vez, quando tudo recomeçaria, de uma forma totalmente diferente…

janeiro 26, 2011

A primeira vez…

por poetamatematico

Respiração arfante, os olhos fechados e ela não acreditava ainda no que estava fazendo. Um monte de coisas passavam pela cabeça enquanto ela deixava aquela boca passear pela sua, as mãos macias e de unhas comidas passarem pelo seu corpo. Passou as mãos pelo cabelo dela, cortado rente. Podia sentir o lugar onde o babeiro tinha feito o pé do cabelo. Ela tinha um cabelo tão bonito, dourado…

- Gostou do cabelo? Eu cortei pra você – a outra disse, olhando-a nos olhos – Você disse que preferia assim e eu fico assim pra sempre se você quiser.

A primeira, que se chamava Rute, desvencilhou-se de Luíza.

- Você não entendeu – disse Rute – eu disse que não podia ser, que a gente não podia.

- Por quê?

- Ora! Você sabe…

Estavam as duas no quarto de Rute. Luíza tinha entrado pela sala de supetão e dado um susto em Rute. Não que fosse a primeira vez que tinham se beijado, elas faziam isso desde sempre, mas dessa vez foi diferente, mais intenso, mais confuso… Luíza tirou o cigarro da jaqueta e acendeu. Estava vestida que nem um menino, calças jeans, jaqueta de couro e camisa preta folgada. Deu uma volta para que a outra a visse e sorriu.

- Sabe que eu gostei? – disse Luíza – eu devia era ter feito isso há mais tempo…

- Não, você não devia ter feito isso – disse Rute, levemente descontrolada – e ainda vem aqui, me beija e diz que a culpa disso tudo é minha.

Luíza chegou perto de Rute, colocando-a contra a parede. Dessa distância Luiza podia sentir o cheiro de cigarro e o corpo quente e macio da outra. Luíza apertou o queixo de Rute com força e sorriu:

- Escuta aqui, sua boba. É tudo por você mesmo e você sabe…

Rute tentou se desvencilhar, mas Luíza era mais forte. E Luíza a beijou na marra mais uma vez, só que dessa vez foi bem mais intenso. Luíza usava todo o seu corpo para pressionar Rute contra a parede. Primeiro esta resistiu, mas depois, com a confusão das coisas passando pela sua cabeça ela relaxou.

E relaxando pôde sentir os seios de Luíza, soltos sob a blusa, colados nos seus. Pôde sentir o hálito quente que agora tomava conta do seu pescoço. Pôde sentir as mãos que antes apenas passeavam sobre a roupa e que agora se embrenhavam, tocavam a pele e iam explorando-a toda.

Capitulou…

Deixou-se conduzir para a cama e que a outra a beijasse onde queria. De olhos fechados ela sentia aqueles lábios macios e carnudos passando por pelo pescoço, pelos braços, pela barriga… De olhos abertos era como se um homem, agora sem camisa estivesse a possuindo naquela cama pela primeira vez.

E deixou-se despir. A vergonha pelos seios nus foi logo substituída pela excitação daqueles lábios tocando os mamilos, primeiro de leve em volta e depois abocanhando com sofreguidão. As mãos também apertavam os seios, fazendo com que a pele morena se acostumasse com aquele toque lascivo e poderoso.

Quando a outra tirou a sua calça, ela não sentiu vergonha do seu corpo. Sentiu-se poderosa, desejada, como nunca antes. E quando ela sentiu o hálito quente da outra entre suas pernas teve certeza de que seria dela e que se entregaria a ela naquela tarde.

E se entregou…

Completamente nua deixou que a outra abocanhasse seus outros lábios. Tremeu ante a sensação desconhecida e ficou no início tímida. Porém, aos poucos deixou que a outra se deliciasse com seu sabor e relaxou. Olhos fechados, sentiu primeiro a respiração acelerar, depois a taquicardia. Aos poucos os mamilos, os pelos do corpo, tudo se juntando em sensações inteiramente novas e vibrantes.

E assim ela apertava a cabeça da outra e Luiza, ciente disso, ia com mais empenho, fazia com mais força, dava a Rute tudo o que ela que desejava. E Rute, dominada, agora balançava devagar o ventre, involuntariamente.

E veio o primeiro dedo. Primeiro sentiu-se invadida, mas deixou que a outra continuasse. E não se arrependeu. Como Luíza fazia bem! Ruth apertava os próprios seios e gemia, rebolando para a outra, mostrando o tamanho prazer que sentia. Luíza, orgulhosa continuava invadindo, devagar e aos poucos preencheu Ruth…

Agora faltava pouco. Aqueles dedos, aquela boca, muito mais do que ela imaginou que seria. E, totalmente controlada pela outra explodiu num orgasmo intenso.

Luiza a beijou e ficou ali acariciando o queixo da outra que se aninhava nela. Sorriram, satisfeitas…

- Obrigada.

- Pelo quê?

- Por insistir…

- E se eu não insistisse seria eu? Nunca…

 

 

 

 

janeiro 25, 2011

Iasmin

por poetamatematico

- Tem certas coisas que você faz – ela disse – que têm um poder sobre mim maior do que eu sou capaz de explicar.

Ele sorriu e passou a mão pelos cabelos lisos. Era um tique dele, passar a mão na cabeça quando estava envergonhado ou nervoso. Ela achava lindo isso que ele tinha de ser tímido nas horas convenientes. Ele levantou-se de cama, ainda nu e perguntou se ela queria alguma coisa da cozinha. Ela disse que não e ele saiu.

Ela deitou na cama com as mãos cruzadas sob a nuca e ficou lembrando dos detalhes da noite. Detalhes, nisso ele era bom, ele sabia preparar cada coisa nos mínimos detalhes. E sabia improvisar também, o que era uma baita qualidade. “Cara, qual é o problema desse homem?”, disse consigo mesma. Mas ela no fundo sabia que o problema era ela tentando achar problema em tudo que era coisa. Ele era o primeiro em muita coisa e isso a deixava assustada. Ficava assustada das coisas que ela dizia pra ele, da maneira como ela se entregava pra ele livremente, com não tinha feito com nenhum outro. Aos outros homens ela se deixava tocar. A ele, ela se deixava conduzir.

E ele a conduzia, fazendo dela o que quisesse. Tinha dias que a xingava de puta, de vagabunda e a deixava toda roxa nos pulsos, nas pernas e nos seios. Tinha dias que ele fazia amor a olhando nos olhos e ela ficava assustada de perceber como ele conseguia dominá-la também de olhos abertos enquanto se mexia bem devagar, por horas. E tinha dias que ele não fazia absolutamente nada a noite inteira, só ficava sentado vendo um filme chato com ela até dormir, e isso era absurdamente bom.

“É a paixão, Iasmim, você sabe…”. “Mas você sabe que não pode, Ele não pode. Ele não quer você…”

E quando ele voltou, ela estava triste. Ele sorriu, deitou do lado dela mansinho e a beijou na testa. Ela se aninhou no peito dele e ficou sentindo o coração bater bem tranqüilo. E entendeu que perfeição se faz nos detalhes…

 
 

  

agosto 4, 2010

Ópio

por poetamatematico

Estava resfolegante. Os olhos muito abertos, pupilas dilatadas, olhando para o teto. Parou para ouvir a música: Coltrane: Russian
Lullaby. O cheiro de ópio em todo o quarto. Chovia. Não tinha fôlego. A cabeça ainda estava cheia daquelas sensações. Endorfina. Queria mais, precisava de mais, mas o corpo não agüentava. Tentou levantar-se, mas estava zonzo. Podia sentir os cheiros, o suor empapando o lençol. Russian
Lullaby. Ela estava ao seu lado, observando-o. Quem era? Não sabia mais. Não sabia de nada, apenas estava interessado em conter os próprios sentidos. As pernas ainda tremiam. Foi bom. Ele podia senti-la. Ela bebia vinho. Chateau Villemaurine. Ela o observava. Ele tinha vergonha, estava nu. Perfume: Eau Sauvage, Dior. Como ele sabia? Tudo estava confuso. Tentou virar-se. Não podia. As mãos tremiam, as pernas estavam incontroláveis. A respiração começou a desesperá-lo. Quem era ela? Ele não sabia. Onde estava? Não sabia. Podia senti-la. Ela chegou mais perto, muito perto. Viu um brinco. Ouro e ametistas, um trabalho muito refinado. O nariz dela tocou de leve a pele do rosto dele. Estava frio. A mão passou pela barriga. Ele tremeu. Ela gostou. Marcas de expressão. 40, 50? Não sabia. Cheiro de ópio. Vinha dela. Ela sorria. “Um menino…”. A respiração acalmou-se. Ela também estava ofegante, mas exalava autoridade. Ele se submeteu. Cabelos negros com mechas grisalhas, pele firme, o tubo do naguilê na boca. Tragou mais uma vez. Arrepiou-se. Sorriu. “Um menino…”. Deitou-se ao lado dele na cama, e o beijou, primeiro na face, depois no pescoço. Ele tremeu. “Um menino arredio…”. Arranhou o peito dele com as unhas bem-feitas, brincando com os pelos da barriga. Segurou-o, com firmeza. Ele tremeu. “Você quer, não quer?”. Ele fechou os olhos. “Responde, meu anjo”. A voz era doce, suave. Ela apertou. Ele mordeu os lábios, mas não disse nada. “Eu posso ser má, eu posso ser boa, você decide…”. Silêncio. Ela estapeou-o, na face, violentamente. A respiração, de novo, ofegante. Queria revidar, queria bater nela. Conteve-se. Ela sentou-se sobre ele, olhando-o nos olhos. Ele tentou dizer alguma coisa. Ele colocou o dedo entre seus lábios. “Shhh…”. Estapeou-mais uma vez, duas, três, com as costas da mão. Ele gemeu. Ela roçou a língua entre as feridas. “Isso, fique quieto… um bom menino…”. As mãos sobre o peito. Beijou-o. Corpo quente, cheiro bom. Levantou-se rapidamente e deu-lhe um violento chute, jogando-o da cama no chão. Ele ficou, de bruços, a barriga encostando no chão frio. Ela beijou a nuca, arranhou as costas e sentou-se nas costas dele, puxando o pelos cabelos. Ele sentia dor. Ela gostava. Segurava a nuca com uma mão e a nádega com a outra. “Você é meu, sabia?”. Ele tremia, um misto de tesão e medo. Certamente, mais tesão do que medo…

 

 

 

junho 17, 2010

A terceira noite

por poetamatematico

Imagem retirada de http://www.aliciante.eu/aliciante/

Primeira noite

A primeira noite foi o acaso. Na verdade, foram múltiplos acasos. O acaso de não ir direto para a festa marcada na sexta à noite, de passar em frente ao bar e encontrar uns amigos que não via a muito tempo, de sair meio de pileque pela rua às duas da manhã, de parar em um cachorro quente lotado na madrugada fria.

Também foi acaso ficar em pé, encostado no carro que não era meu. Acaso que esse carro fosse seu. Acaso que eu puxasse papo, contasse uma piada. Acaso que você risse. Deixar meu telefone com você que foi de propósito.

Segunda noite

A segunda noite foi surpresa. Surpresa de meu telefone tocar. Surpresa de não ter perguntado seu nome na noite anterior. Surpresa de você não ficar nervosa por eu não saber. Surpresa de ficarmos mais de uma hora no telefone. Surpresa de termos vários amigos em comum e nunca termos nos encontrado. Surpresa de termos estado, juntos, em vários lugares antes, e não termos nos visto. Surpresa de gostarmos das mesmas músicas e de querermos ir ver, na mesma noite, aquele grupo côver de uma banda inglesa.

Surpresa foi ver como você estava linda e produzida. Surpresa foi ver como dançamos bem juntos. Surpresa eu acertar a marca do seu perfume de primeira. Surpresa foi seu beijo roubado de mim antes que eu percebesse. Só não foi surpresa marcarmos para sair de novo.

Terceira noite

A terceira noite foi a dos detalhes. A empregada que deixou tudo limpo e arrumado, tinindo, enquanto eu fui fazer as compras. O cabeleireiro para dar um trato visual e na barba. As músicas baixadas da Internet e salvas todas num disco de Mp3. O vinho recomendado pelo seu amigo somelier. A calça e a camisa novas, escolhidas para serem informais e elegantes. A preparação dos pratos para o jantar, providencialmente atrasada para que desse tempo de você chegar antes do fim.

Também foi detalhe eu ir te atender na porta de avental, para que ela não pensasse que eu estava esperando. A rosa, pequena, deixada em um vaso sobre a mesa onde fomos jantar. A passada pela cozinha para você ver tudo sendo preparado. A conversa animada, embalada a vinho, enquanto o prato terminava de assar. O beijo que eu roubei antes de terminar de arrumar a mesa.

A música: Coltrane, Miles Davis, Ella Fitzgerald, B.B. King e Nat King Cole. A conversa mais séria, onde fica tudo nas entrelinhas. A hora que paramos para ouvir o solo de saxofone. Sorrimos.

A música: Joni Mitchell, Blue. Minha mão encosta na sua. A dança, a mão nos cabelos, a sua boca entreaberta, esperando meu beijo. O cheiro inebriante do mesmo perfume da noite anterior, os cabelos macios, a maquiagem sóbria e marcante, os olhos fechados, seu corpo sendo conduzido pelas minhas mãos.

A textura dos lábios, da língua. O calor da respiração, e do seu corpo, quando ficamos abraçados.

O lençol de cetim, a iluminação difusa, o cheiro de hidratante, a mão que passa pela pele nua. A textura das suas unhas, bem-cuidadas, sobre a minha pele. A pressão do seu corpo sobre o meu. Seus cabelos sobre o meu rosto. Meu sorriso…

A renda…

O resto…

O vazio momentâneo e maravilhoso que sucede o prazer. A noite lá fora enquanto dormimos.

A incerteza sobre as outras noites que virão.

 
 

 
 

fevereiro 17, 2010

Metrô

por poetamatematico

Segunda-feira, seis da manhã. Acordo mal-humorado, rolo na cama algumas vezes. O celular continua tocando. Levanto. Sem tempo nem de espreguiçar vou tomar banho, frio. Não porque precise, mas é a única maneira de acordar cedo. Estou sem dinheiro, a bolsa não entrou. “Melhor não tomar café”, penso, “é tarde, preciso ir”.

Seis e meia. Saio na rua ainda escura, desviando para não tropeçar nos bêbados e drogados que dormem nas calçadas. Ando depressa, tenho medo de ser assaltado e hoje preciso do notebook no trabalho. Claro que ele está na mochila. Na manhã fria, meus passos apressados se confundem aos sons do trânsito que vêm num crescendo angustiante.

Tarde demais pra pegar o ônibus. A essa hora não chego às oito de jeito nenhum. Penso em pegar o carro. Não, melhor não. Melhor andar mais uma quadra até o metrô. Está frio, mas o dia vai ser quente. É muito ruim escolher roupas num dia assim. Um dia mato o filho da puta que inventou o horário de verão.

Pago a passagem e entrou na estação. O dinheiro que sobra mal dá pro almoço. “Tenho de arrumar dinheiro, rápido, a coisa tá ficando insustentável”. Fico de pé na estação, espero. Silêncio. Parece que todos os outros passageiros resolveram acordar de luto. Deve ser assim todas as segundas.

Ligo o MP3. Elvis ou Beatles? Na dúvida fico com Chico Buarque. Experimento o rádio. Não pega. Vai ser Chico mesmo. Construção. Fico perdido na melodia que se repete, junto com a letra maluca que se inverte várias vezes. Não consigo disfarçar o sono, nem prestar atenção no Chico.

O Meu Amor. O metrô chega, as pessoas se acotovelam. Entro. Cheio. Fico no canto, olho pro chão. Bocejo. Geni e o Zepellin. O metrô fecha as portas, me seguro. Ela esbarra em mim.

Mas antes de olhar, sinto o cheiro. Xampu, colônia, desodorante e pasta de dente. Cheiro de manhã. Olho primeiro para o braço, para as mãos. Evito o rosto. Nunca é bom olhar no rosto no metrô. Ainda não está cheio, não é a hora.

Está abafado. Tiro a mochila das costas e esbarro nela sem querer. Olho para o corpo magro, roupas simples, mas limpas. Marrom. Ela fica bem de marrom.

Quinze para as sete. Outra estação, mais pessoas entram. Me empurram por trás. Ela me olha nos olhos. Olhos negros. Ouço o MP3. Olhos nos Olhos. Chico tá de sacanagem comigo.

Ela se vira, de frente pra mim. Sorri. Sorrio de volta, em cortesia. Sinto o cheiro de xampu. Fado Tropical. Não é hora de discurso político. Troco a música. Vai Passar.

Sorrio, tamborilo o ritmo com os dedos. Ela parece ouvir. Estamos próximos. Ela tem cabelos grisalhos e tatuagem no punho. Meu Deus, como ela é linda. Sinto vontade de beijar sua boca. Ela também, eu acho. Mas isso é assédio. As Vitrines. Sinto tesão, desses que o jovem sente de manhã. Meu Deus, isso é assédio, posso ser preso. Não hoje, primeiro dia no trabalho.

O metrô enche mais. Estamos juntos, quase colados. Sinto o cheiro de pasta de dente, ela deve estar sentindo a loção pós-barba. Queria puxar papo, ela é bonita. Mas não sei, tenho medo. O que se fala no metrô? “Está cheio hoje, não?” “Você viu o jogo do Flamengo?” “Qual xampu você usa?”. Melhor calar. Ela me encara. Tenho medo e tesão. Não consigo disfarçar mais. Os homens nunca conseguem.

A mulher me seduz inconscientemente. Não consigo parar de olhar pra ela. Viro para os lados, mas os olhos voltam pros cabelos, a tatuagem no punho. Os cabelos grisalhos, os dentes brancos, a bolsa de couro a tiracolo. O metrô balança. As pessoas em silêncio. Calor, abafado. Yolanda.

Quero tomá-la nos braços, sentir nas mãos os cabelos, procurar no corpo todo a origem do perfume. Sim, estou ficando maluco por aquela desconhecida que me encara de frente sem medo. É isso. Ela não tem medo de dizer com o corpo que sente o mesmo que eu.

As bocas muito próximas agora. Sinto a respiração arfante. As duas. Está abafado. Metrô lotado. Nos olhamos nos olhos. Desalento.

Ela me quer, eu sei, mas não tenho coragem. Não hoje, às sete da manhã, sem dinheiro nem para tomar um café. Não hoje. Mas sinto tesão, por ela. Ela é linda. Queria saber seu nome. Luíza.

O sol nasceu. Suo. Ela sente, muito próximos. Peraí, Luíza é do Jobim. Não era Luíza, era Rita. Sim, era Rita. Quero beijá-la. Não dá. É minha estação. Eu desço. Ela também. Meu Deus…

Eu ando, ela me segue, passa. 108 sul, muitos descem também. Sigo-a com o olhar. Ela vira e me sorri. É tarde. Ela se foi. Bárbara.

Desligo o MP3 e me concentro em ir ao serviço. Ainda tenho cinco quadras para andar.

Nunca mais a vi.

fevereiro 3, 2010

Conversa…

por poetamatematico

- É tarde.

- Não acho. Depende de como se pensa nesse problema. Para mim, por exemplo, ainda é bem cedo. Na verdade, ainda é cedo mesmo.

- Pode ser. Não pensei nisso ainda.

Silêncio breve.

- E quando ele souber? – disse um pouco aturdida.

- E desde quando ele precisa saber?

- É mesmo – respondeu resignada.

Silêncio breve.

- Queria um cigarro, você tem?

- Claro – acende.

Fumam, olhando pras luzes da cidade de cima do bloco da 510 norte. Gostavam de ir até o terraço desde sempre. Agora ali seria sempre o seu espaço.

- Eu não sei ainda, sabe? É difícil. É uma situação pra qual a gente não se prepara. Eu tenho medo.

- Medo? Foi isso que você sentiu?

- Claro que não – ela sorri – Você sabe que foi bem mais que isso.

- Então me beija de novo e deixa seu namorado pra lá pelo menos essa noite.

Se beijaram sob as estrelas do planalto central. Duas mulheres, duas amigas de infância, Carolina e Ana, descobrindo seus mistérios.

 

 

 

fevereiro 2, 2010

Voltamos

por poetamatematico

Em respeito aos leitores deste blog, os textos antigos estão de volta. Aproveitem, pode ser por tempo limitado!!!!!

junho 7, 2009

Acabou

por poetamatematico

Já é.

Tudo tem um fim. Isso acabou.

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