Segunda-feira, seis da manhã. Acordo mal-humorado, rolo na cama algumas vezes. O celular continua tocando. Levanto. Sem tempo nem de espreguiçar vou tomar banho, frio. Não porque precise, mas é a única maneira de acordar cedo. Estou sem dinheiro, a bolsa não entrou. “Melhor não tomar café”, penso, “é tarde, preciso ir”.
Seis e meia. Saio na rua ainda escura, desviando para não tropeçar nos bêbados e drogados que dormem nas calçadas. Ando depressa, tenho medo de ser assaltado e hoje preciso do notebook no trabalho. Claro que ele está na mochila. Na manhã fria, meus passos apressados se confundem aos sons do trânsito que vêm num crescendo angustiante.
Tarde demais pra pegar o ônibus. A essa hora não chego às oito de jeito nenhum. Penso em pegar o carro. Não, melhor não. Melhor andar mais uma quadra até o metrô. Está frio, mas o dia vai ser quente. É muito ruim escolher roupas num dia assim. Um dia mato o filho da puta que inventou o horário de verão.
Pago a passagem e entrou na estação. O dinheiro que sobra mal dá pro almoço. “Tenho de arrumar dinheiro, rápido, a coisa tá ficando insustentável”. Fico de pé na estação, espero. Silêncio. Parece que todos os outros passageiros resolveram acordar de luto. Deve ser assim todas as segundas.
Ligo o MP3. Elvis ou Beatles? Na dúvida fico com Chico Buarque. Experimento o rádio. Não pega. Vai ser Chico mesmo. Construção. Fico perdido na melodia que se repete, junto com a letra maluca que se inverte várias vezes. Não consigo disfarçar o sono, nem prestar atenção no Chico.
O Meu Amor. O metrô chega, as pessoas se acotovelam. Entro. Cheio. Fico no canto, olho pro chão. Bocejo. Geni e o Zepellin. O metrô fecha as portas, me seguro. Ela esbarra em mim.
Mas antes de olhar, sinto o cheiro. Xampu, colônia, desodorante e pasta de dente. Cheiro de manhã. Olho primeiro para o braço, para as mãos. Evito o rosto. Nunca é bom olhar no rosto no metrô. Ainda não está cheio, não é a hora.
Está abafado. Tiro a mochila das costas e esbarro nela sem querer. Olho para o corpo magro, roupas simples, mas limpas. Marrom. Ela fica bem de marrom.
Quinze para as sete. Outra estação, mais pessoas entram. Me empurram por trás. Ela me olha nos olhos. Olhos negros. Ouço o MP3. Olhos nos Olhos. Chico tá de sacanagem comigo.
Ela se vira, de frente pra mim. Sorri. Sorrio de volta, em cortesia. Sinto o cheiro de xampu. Fado Tropical. Não é hora de discurso político. Troco a música. Vai Passar.
Sorrio, tamborilo o ritmo com os dedos. Ela parece ouvir. Estamos próximos. Ela tem cabelos grisalhos e tatuagem no punho. Meu Deus, como ela é linda. Sinto vontade de beijar sua boca. Ela também, eu acho. Mas isso é assédio. As Vitrines. Sinto tesão, desses que o jovem sente de manhã. Meu Deus, isso é assédio, posso ser preso. Não hoje, primeiro dia no trabalho.
O metrô enche mais. Estamos juntos, quase colados. Sinto o cheiro de pasta de dente, ela deve estar sentindo a loção pós-barba. Queria puxar papo, ela é bonita. Mas não sei, tenho medo. O que se fala no metrô? “Está cheio hoje, não?” “Você viu o jogo do Flamengo?” “Qual xampu você usa?”. Melhor calar. Ela me encara. Tenho medo e tesão. Não consigo disfarçar mais. Os homens nunca conseguem.
A mulher me seduz inconscientemente. Não consigo parar de olhar pra ela. Viro para os lados, mas os olhos voltam pros cabelos, a tatuagem no punho. Os cabelos grisalhos, os dentes brancos, a bolsa de couro a tiracolo. O metrô balança. As pessoas em silêncio. Calor, abafado. Yolanda.
Quero tomá-la nos braços, sentir nas mãos os cabelos, procurar no corpo todo a origem do perfume. Sim, estou ficando maluco por aquela desconhecida que me encara de frente sem medo. É isso. Ela não tem medo de dizer com o corpo que sente o mesmo que eu.
As bocas muito próximas agora. Sinto a respiração arfante. As duas. Está abafado. Metrô lotado. Nos olhamos nos olhos. Desalento.
Ela me quer, eu sei, mas não tenho coragem. Não hoje, às sete da manhã, sem dinheiro nem para tomar um café. Não hoje. Mas sinto tesão, por ela. Ela é linda. Queria saber seu nome. Luíza.
O sol nasceu. Suo. Ela sente, muito próximos. Peraí, Luíza é do Jobim. Não era Luíza, era Rita. Sim, era Rita. Quero beijá-la. Não dá. É minha estação. Eu desço. Ela também. Meu Deus…
Eu ando, ela me segue, passa. 108 sul, muitos descem também. Sigo-a com o olhar. Ela vira e me sorri. É tarde. Ela se foi. Bárbara.
Desligo o MP3 e me concentro em ir ao serviço. Ainda tenho cinco quadras para andar.
Nunca mais a vi.