Julho 4, 2008

Após o fim do filme:
- E quem você queria ser?
- Ghandi…
- Porquê Ghandi?
- Porque é preciso ter muito amor à vida para dedicar a vida inteira a amar os outros.
- …
- E é de amor que falamos, não é?
- Amor sem palavras, de todas as formas…
- Amor….

Paris

Junho 20, 2008

As pernas passeavam rapidamente pela rua. A bolsa bem protegida sob o braço. É preciso ter pressa. Quanto tempo faltará? O céu está negro. Deve chover em breve. Gostaria de ver o céu agora, mas não era possível.

Eram tempos difíceis estes. Hitler estava bem perto. Por toda Paris havia pessoas fugindo. A derrocada é inevitável. Que seria de Paris?

Parou num café e acendeu um cigarro. O garçom, impecavelmente vestido, deixou o menu. Ela pediu o vinho e parou, observando a cidade vazia. Tristeza. Aquilo não era Paris. Maldito Hitler.

Um menino mirrado passou por ela rapidamente, deixando um pequeno bilhete. “Au Nord”. Ao norte. Que seria? Calmamente, olhou para lá. Um mulher, altiva, vestida totalmente de negro, um grande chapéu que lhe cobria parcialmente o rosto. A estranha mulher levantou-lhe a taça de champagne. Parecia sorrir…

Um sorriso amarelo, escondido atrás de um rosto impassível. Justine levantou-se e foi até a estranha mulher. Perto o suficiente para ver os olhos, negros e profundos.

– Isto não é Paris, ela disse. — Brindemos aos alemães.

– Não brindo a nazistas.

– Você não entende, não é? É inevitável… O curso da História nos levou a isso. Sente-se, ainda há champagne. Há que se aproveitar…

Justine sentou-se e continuou a fumar o cigarro.

– Sabe qual é a parte boa de estar perto de ver o Apocalipse? - Disse a mulher de negro.

– Não…

A mulher olhou-a nos olhos.

– Tudo é permitido.

Justine sorriu, tocando de leve o queixo macio e branco da outra mulher. Agora podia reconhecê-la.

– Então, aproveitemos, Anaïs, Aproveitemos…

Áqueles Lábios

Abril 13, 2008

 

A boca nua, indecente, farta de lábios grossos e avermelhados pulsa no suspiro involuntário da respiração, produzindo nuvens de feromônios por onde passa. Meu corpo feito, imita o ritmo anunciado, dança na noite, assoberbado, vegeta no limite entre a razão e o ensurdecimento.

Deste modo, eu, testemunha errante do rastro indefectível daqueles lábios grossos e avermelhados, sucumbo ante a textura aveludada, ao toque macio e delicado que eles fazem nos meus próprios lábios. E todo eu saio de mim, expiro, transpiro o odor erétil das minhas sensações inescondíveis, pronuncio entre os outros corpos que dançam na noite o vigor e a sagacidade de estar tomado, completamente entregue aos desejos ardentes da dona daqueles lábios.

Lábios nos lábios, mãos nas mãos, corações febris, seguindo as ritmadas batidas, buscando o entendimento, ultrapassando o êxtase, o nirvana, o total, absoluto e indescritível desprendimento.

Por isso mesmo, quando descanso da noite eterna que dura os poucos segundos em que lábios e lábios, mais que lábios, juntam os lados e fazem sentido onde antes brotava o desentendimento. Produzo endorfina, adrenalina, cocaína…

Retratos espontâneos tirados no final da rave…

Seguindo um meme da Urban, segue aqui uma lista das oito coisas que quero fazer antes de morrer. Bem, nem tudo é muito erótico, mas todas as coisas são tremendamente significativas pra mim:

1- Fazer um gol de placa no Maracanã lotado!!!

2- Derrubar um ditador sanguinário num país latino-americano ou dar minha vida pela liberdade de um povo oprimido;

3- Aprender a surfar (Em Brasília é meio difícil, mas existem os lendários surfistas do lago Paranoá, rsrsrsrsrsrs)

4- Curar meu joelho para que eu possa dançar, escalar montanhas e jogar futebol…

5- Ter um lugar só meu, pra onde eu possa fugir de vez em quando só para ver as estrelas…

6- Pular de pára-quedas;

7- Ser um escritor, nem que seja de um único livro solitário, mas que seja todo meu, minha alma, meu sangue e meu legado…

8- Casar por amor e não me arrepender…

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Taí a lista, meio piegas, admito, mas são as minhas prioridades pros próximos anos. Tem coisas mirabolantes, admito, que nem essa idéia de fazer gol de placa no maracanã lotado, mas eu sou assim, um pouco mirabolante e um pouco pé no chão. Se alguém quiser me ajudar a realizar alguma delas (principalmente a parte do joelho, que tá foda), manda aí um sinal de fumaça.

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Em tempo, vão aí os oito contemplados em responder o Meme:

1- Mamy

2- Señorita P.

3- JuJu de Blu

4- Neutron

5- Menina Eva

6- Flora

7- Má

8- …

Dueto

Março 30, 2008

Quando Clara chegou em casa naquela noite de novembro nem desconfiava do que acabaria se passando. Era sexta-feira e a semana tinha sido mais pesada do que o habitual, pois ela tinha voltado de uma viagem a trabalho. Devia voltar só no sábado de manhã, mas conseguiu uma conexão de avião de última hora.

No quarto, tirou o casaco, deixando-o cair sobre o chão, despiu-se completamente, amarrou os cabelos em coque e foi tomar um desejado banho. Estava frio, lá fora garoava leve, fazendo barulho nos telhados. Não viu seu marido. Ele devia ter emendado o trabalho com um happy hour.

A água quente lhe fazia bem, relaxada. Não conseguia explicar por quê, mas sentia uma grande excitação. O toque das mãos em seu próprio corpo produzia calafrios. Podia sentir os bicos dos seios duros, sensíveis, reagindo delicadamente ao deslizar macio da água. Este pequeno sentimento tornou-se quente, acolhedor, tomando conta de seu corpo. A boca abriu-se num suspiro, quando ela tocou a própria nuca. A pele arrepiada, pontilhada de pontos solitários: pequenos vulcões ativos, prestes a entrar em ebulição.

Pensava em Mário, seu marido. Eles sempre se entenderam tão bem. Agora, depois de mais de uma semana longe, ela sentia um grande vontade de ser possuída como só ele era capaz.

Uma de suas mãos agora deslizava febrilmente no meio das suas pernas, toque delicado, sensível, buscando os recantos escondidos do seu corpo. Dedos que logo invadiam e provocavam intensas e involuntárias contrações. Ela gemia docemente, sentindo de olhos fechados os efeitos de seu próprio prazer.

Repentinamente ouve vozes, barulho de copos tilintando, gelo… Fecha o chuveiro para escutar melhor. O que poderia ser isso? Uma das vozes é do seu marido, a outra, desconhecida. Sua curiosidade cresce enquanto seu coração dispara, a outra voz é feminina. Chuveiro fechado, seu corpo ainda recoberto de espuma, pés molhados escorrendo sobre o tapete do quarto, o som das vozes se torna mais nítido, risos, silêncios… mais silêncio. Sua vontade é sair correndo e entrar na sala, mas controla-se e pé ante pé dirige-se ao corredor, já ouvindo alguns sussurros, gemidos, sons abafados… Sua respiração acelera, ela sente-se num misto de excitação e raiva. Faz frio, mas seu corpo ferve.

Num determinado ponto o corredor se alarga e forma um hall, onde ela coloca-se estrategicamente, vendo e não sendo vista. Mário está parcialmente nu, ainda de camisa e o laço da gravata desfeito serve de coleira que é puxada por uma mão de unhas vermelhas, só o que ela vislumbra da outra pessoa. Move-se mais à frente louca de curiosidade, percebendo em si uma estranha excitação.

Ela sente uma raiva imensa, mas mantém-se imóvel, ouvindo cada parte dos sorrisos, dos beijos estalados. A mulher desconhecida tira a camisa de seu marido, arranha seu peito enquanto beija-o com volúpia, dizendo coisas desconexas. Depois disso, joga-o com força sobre o sofá, colocando a sandália de salto sobre sua barriga.

- Beije meu pé.

Ele faz uma cara de contrafeito e ela lhe estapeia a face, ruidosamente…

- Agora…

Mário, o marido de Clara está entregue a uma grande excitação. Beija o pé, chupa cada um dos dedos delicados e bem cuidados, submisso, entregue. Ela tira o vestido longo com um movimento rápido e certeiro, permanecendo vestida apenas com uma calcinha minúscula, transparente. Clara sente um prazer inexplicável ao ver aquela cena. Seu marido era apenas um brinquedo para aquela mulher maravilhosa. Seu corpo pulsa de desejo. Deixou então a toalha cair e contemplou-se inteiramente nua sobre o chão frio de azulejos. Seus dedos ágeis tocavam seu clítoris, enquanto ela observa a mulher desconhecida cavalgar ruidosamente seu marido, usando a gravata como uma corrente em que ela domava seu cachorrinho.

Clara aperta a mão com suas pernas, arqueia o corpo e tenta conter os gemidos. A excitação é grande e ela explora-se profundamente, enquanta aperta os próprios peitos. Pensa naquela mulher, seu charme, a boca grossa de lábios esculpidos, as sobrancelhas bem-feitas, os seios volumosos, as mãos delicadas contrastando com o jeito forte, soberbo de mulher decidida. Tudo que ela mais queria de si mesma. E ela punha-se de olhos fechados, respiração alterada, sentindo os pequenos espasmos que antecedem um gozo maravilhoso. E, quando ela abre os olhos, para ver o corpo nu daquela mulher que lhe causou tanto tesão, viu que seus olhos e os dela tinham-se encontrado. Tinha sido descoberta…

Clara, mesmo paralisada de medo, lateja de desejo. Por alguns instantes elas encaram-se para em seguida a loura ignorá-la ao mudar de posição numa provocação, ajoelhando-se entre as pernas do seu marido, encarando-a cinicamente ao chupá-lo com desmedida dedicação, engolindo-o inteiro, lábios e língua relaxados deslizando de cima a baixo numa repetição enlouquecedora. Mário larga-se sobre o sofá gemendo palavrões, olhos que ora se fecham em delírio e ora abrem-se como um voyer admirado, enlouquecido.

Tomada por um ímpeto, Clara aproxima-se do sofá colocando-se ao lado da desconhecida, partilhando o pau do seu marido que se oferece completamente rijo, pulsante. Recomeçam a chupá-lo juntas, uma deliciosa mistura de línguas e pau, o gosto dele, o delas, a saliva morna que se mistura e escorre junto a mãos que deslizam e apertam suavemente.

Mário abre os olhos novamente confuso, observando maravilhado a cena onírica à sua frente. Fantasia, delírio? Sua amante e sua mulher compartilhando seu pau, esquecidas, olhos fechados entregues ao desejo. Aos poucos soltam-no e entregam-se a um beijo febril, longamente saboreado, agarradas, famintas, seios eriçados, bocas coladas, corpos suados que brilham. Caem uma sobre a outra, se esfregam, mãos que buscam, se exploram mutuamente, línguas sedentas que provam, descem, chupam, lambem. Louco delírio… Enquanto diante daquela cena inacreditável, Mário delirando, masturba-se descontroladamente, explodindo de tesão.

E, na noite fria e solitária, os três corpos misturam-se sedentos, de tal forma unidos que nem se sabe se há começo ou se há fim. De certo mesmo só um desejo ardente, urgente, imprescindível que toma tudo, viceja. Desejo de pesadelo, suplício, que só se aplaca no gozo, no gosto dos gostos misturados.

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Senhoras e senhores visitantes deste blogue. É com orgulho que anuncio que este texto foi escrito delicadamente pelas minhas mãos e de um dos maiores talentos da internet, a poderosíssima Urban. Espero que vocês gostem das novidades!!!

Abraços a todos!

Paixonite

Fevereiro 10, 2008

Não sei porque, mas eu sou do tipo que cai nessas paixonites. Eu gosto desse termo, paixonite, que nem bronquite, sinusite, meningite. É que é súbito, sabe? Você nem sabe como é que começou, só que tá lá e…

Bem, normalmente já se instalou. Paixão é uma doença das mais traiçoeiras.

Foi assim com ela. Tarde quente, saindo do trabalho, um calor infernal nas ruas. Odeio calor, mas como era sexta, resolvi sair e beber uma cerveja com os amigos. Nem cerveja eu bebi, porque estava dirigindo. Preferi ficar num suquinho mesmo. E então, suco vai, suco vem, os amigos bebendo muito e coisa e tal…

Pronto… A Luíza tava desabando de bêbada.

Pedaço de mau caminho essa Luíza. Quer dizer, não era meu tipo de mulher bonita. Mas, sei lá…

Vou ser sincero. Na verdade eu nunca tinha notado a Luíza. Ela lá na seção de contabilidade, muito feliz e eu no RH. A gente, muito de vez em quando, se batia no elevador. Eu falava “oi”, ela falava “olá” e ficava só nisso. Mas, naquele dia, não teve jeito. A coitada da Luíza precisava de alguém pra levá-la em casa.

Eu não tinha bebido, descobri que ela morava ali pertinho e era melhor eu levá-la que um táxi. Fui apenas na educação, sem segundas intenções.

Mas, chegando lá, a coisa ficou feia. A mulher começou a botar os bofes pra fora. E eu ali, sem saber o que fazer, aquela situação embaraçosa…

Coitada da Luíza, toda decomposta lá no banheiro e eu sem intimidade nenhuma com ela. Fui ficando. Sei lá, bateu um senso se responsabilidade, sabe? Eu tinha trazido ela em casa, então tinha de deixá-la bem.

O barulho parou, fiquei do lado de fora da porta, ouvindo pra ver se tava tudo bem…

Daí a pouco ela começa a chorar…

Chora, chora, chora…

Putz…

Não tinha o que fizesse ela parar.

É…

Tava na hora de usar a força bruta…

Abri a porta, peguei ela no colo, desliguei o chuveiro e tome água fria na cabeça, de roupa e tudo. A coitada da Luíza me azunhava de ódio, mas depois foi ficando mansa. Deixei ela lá, tremendo de frio e fui colocar água pra ferver. Café preto, isso nunca falha.

Voltei com uma toalha. Era constrangedor isso, mas tive de tirar a roupa dela. Deixei só com a lingerie. Juro pra vocês que tentei não reparar. Mas, pô, era vermelho! Chama mais atenção que sinal piscando amarelo de madrugada! E era tão, sabe, bonito… tão certinho, tão bem cortado no corpo. É difícil a gente não notar…

Mas tentei seguir minha tarefa com profissionalismo. Enxuguei-a, bem, carreguei ela pro quarto, separei uma muda de roupa bem discreta pra ela vestir e desci pra terminar o café.

A água já fervia. Foi só o tempo de jogar o pó e o açúcar dentro. Subi bem rápido, bati na porta e entrei. Já estava vestida, com aquela cara de triste, mas parecia melhor. Fiz ela beber o café bem quente, pelando. Ela fez careta, mas não dei jeito. Bebeu mesmo assim…

Quando ela terminou, pensei em colocá-la na cama…

Não deu tempo. Ela me tascou um beijo daqueles, de tirar o ar da gente. Eu tentei resistir, mas não dava mesmo. Uma mulher atraente, carente, numa noite solitária…

Quem resiste?

Mas o problema não foi esse. É que foi bom, sabe? Ela se aninhou direitinho nos meus braços e a gente se amou devagar, como se já se conhecesse. E eu retribuí, na mesma altura. Quando a gente finalmente parou, era dia alto e ela adormecia no meu peito, satisfeita.

Eu pensei: é essa! Não podia ser outra! Ela tinha uma coisa que me completava. Era o que eu sempre busquei numa mulher, mesmo sem saber. Por isso, quando eu me despedi dela, no outro dia, foi com uma dor danada no peito…

Mas ela começou a me evitar. Não retornou nenhuma ligação, virava a cara na empresa. Eu não aguentava mais essa mania de me ignorar em tudo que é lugar.

Até que um dia a gente entrou no mesmo elevador. Não aguentei, liguei o botão de emergência e fiz ele parar. Mas não éramos só nós, o elevador estava cheio.

- Porque vc tá me ignorando esse tempo todo? O que eu te fiz?

- … – ela muda. Esse silêncio era o que mais me incomodava.

- Fala, mulher, eu mereço uma resposta, uma explicação!

- …

- PELAMORDEDEUS!

- …

Eu não aguentava mais!

- Você quer saber mesmo? – assenti com a cabeça, já me sentindo aliviado – Eu odeio homem muito grudento, muito carinhoso. Homem pra mim tem de ter pegada, chegar chegando! Não pode ser assim, que nem você, cheio de carinhos. Agora me dê licença que eu tenho uma série de relatórios pra entregar pro seu Almeida.

E eu vi minha paixão se escafeder pela corredor adentro. Pior mesmo foi a zuação da galera do trabalho que durou bastante tempo depois disso. O bom de paixonite é isso, a gente pega fácil, mas sara que é uma beleza!

Estréia

Janeiro 26, 2008

Subimos as escadas carregando o colchão de casal. Morar em prédio de periferia é isso. Três lances de escada, e quem vai colocar elevador num prédio de três andares?

Os pedreiros, depois de adiarem duas vezes o término da reforma e pintura, foram embora, deixando o chão coberto de pingos de cimento. Os carregadores do caminhão, depois de garantir que tudo estaria terminado às cinco da tarde,  depositaram as nossas caixas da forma mais apropriada a impedir completamente a circulação pela casa. Se era pra ficar até nove e meia da noite, podiam ao menos ter arrumado um pouco. Os montadores dos móveis, só amanhã.

Falei pra ele ir comprar alguma coisa. Não tínhamos nem água pra beber. A única coisa que trouxemos da geladeira antiga foi margarina e um pacote de passas. Ele deu tudo - queijo, presunto, iogurte, frutas - pros vizinhos, com medo de estragar. E foi bem pensado: nove horas de mudança nesse calor seriam capazes de transformar leite de caixinha em coalhada longa vida.

Ele foi ao supermercado. Eu disse: “Traz guaraná, salsicha e pão. A gente faz kikão, eu quero comer uma coisa salgada. ” Ele saiu, e eu escutei a chinela dele descendo escada, chlep chlep chlep. Não encontramos a caixa com as roupas e sapatos dele, e o pobre saiu com a mesma camiseta fedorenta da mudança. Tomara que o pessoal do supermercado não se incomode.

Sozinha. Caixas por todos os lados.

Consulto minha lista de controle, tentando achar algo que faça a casa funcionar.  Caixa A - porta-retratos e álbuns de fotos. Caixa b - tabuleiros de xadrez, coleção de rochas,  livros dele. Partituras. Três resmas de papel a4.  “Cadê os pratos?” Caixa c - gaveta de calcinhas e meias. Caixa D -  enfeites de Natal. “E porque não? Em fevereiro!” Caixa E, meus livros, cd’s e revistas. Caixa F, som! Ah, o som.Depois de libertar a tomada que estava sufocada por uma das portas do armário da cozinha, consigo fazer o som funcionar. Nenhum dos Cd’s da caixa  é dos que eu gosto. Merda. Onde eu tava com a cabeça quando comprei cd de samba-enredo? Coloco um cd de sons da natureza. Talvez ajude a encontrar os pratos. “Ah, e os copos.”

Minha lista de controle interrompe-se bruscamente na caixa J -  papelaria, grampeador, listas telefônicas, pr

Pr? Pratos? Porque não escrevi tudo? Ah, porque o caminhão chegou e os carregadores foram lacrando tudo antes que eu pudesse anotar. Legal. Tão eficazes, eles, na hora que a gente não precisa. Podiam ao menos fazer uma pRilha mais perto da parede. Ocupar o quarto e deixar o caminho da sala livre.  Pr. Seriam prateleiras? PRorra. PRutaquilparil.

Ligo pro celular dele e digo pra comprar duas escovas de dentes, não faço idéia de onde estão as nossas. “Que cor?”, ele pergunta. “Prateada, preta, pRúrpura”, eu rio. Ele não entende.  “Que barulho é esse?” “É o cd de pRassarinhos. Compra também pRasta de dente.”

Falta um tiquinho só pra eu surtar. Bebo água da torneira, muito a contragosto. Quase posso ouvir os protozoários se multiplicando dentro de mim.  PRotozoários; eu rio de novo. Cadê a caixa com pr-qualquer coisa?

Abro a caixa e descubro que são provas de concurso. Nossa, mais de trinta. Eu juro que vou tocar fogo nessas porcarias. Só preciso encontrar álcool. E fósforos.  Mas antes, os pratos.

Atrás da TV, no canto mais inacessível, encontro a caixa de louças. Usando todo o meu talento de contorcionista,  alcanço um pires e uma caneca de chopp. Aqueles DVD’s do Cirque de Soleil foram muito educativos. Como ninguém paga ingresso pra me assistir, não vai ter bis. O resto da louça, só amanhã. Usamos a mesma caneca essa noite.

Jogo o colchão no chão. Chlep, chlep, chlep, duas chinelas de dedo subindo as escadas.

Ele volta carregado. E com um sorriso suspeito.

-  Cadê o pão que eu pedi?

- Trouxe não.  - Ele se joga no colchão. Quem faz aula de judô na escola deve se acostumar com tatame por todos os lados, pois ele nem percebeu o esforço que eu fiz pra montar acampamento.

- Trouxe o quê então, homem de Deus? - Abro as sacolas. Escovas e pasta de dente, e ah! a água mineral. Encho a caneca de chopp com água e esvazio metade de um gole só. Ele termina de beber. Continuo abrindo as compras. Estou faminta.  - Óleo de amêndoas? - Ele não responde. Sabonete, uma boa lembrança! No outro saco,  uvas - na bandejinha de isopor anti-ecológica que eu DETESTO. Leite condensado de uma marca fuleira, com o qual não dá pra fazer nenhuma maravilha.

-  E eu  avisei que queria comer algo salgado. Ô, homem.

- Tu não gosta de fruta, pô? Eu trouxe bastante. Tem leite tabém, amanhã a gente tem como acordar e não ficar jejuando.

Começo a comer as uvas. Ao menos o pires recém-encontrado vai servir pra alguma coisa: jogar fora as sementes e talinhos. Ele me olha. “Tá armando alguma”, penso.

- Tem mais um saco, ó.

- Oba, mais comida?

- Não… Abre pra ver.- Abro a sacolinha. - É uma surpresa.

- PReservativos?!?

Começo a rir  alto, rolando no colchão. Ele se joga por cima de mim e me segura os braços. Nunca sei se isso é wasari ou yuko.

- Mat-tê, Mat-tê! -  eu não consigo parar de rir. Tento puxar a blusa pra esconder a barriga. Ele não deixa. - Tu JURA MESMO que a gente tem… pRique pra fazer alguma coisa, hoje ainda?

- Desanimada? - ele revira os olhos. Eu acho bonitinho quando ele revira os olhos e sopra a franja. - Não acredito. Hoje é a primeira noite na casa nova. A gente tem que transar!

- “A gente tem“? - Cruzo as pernas ao redor da cintura dele. Aparece uma câimbra fina no dedão do pé esquerdo. Devo ter subido e descido quinhentos degraus hoje. Estou fedida. Com fome. O ordinário consegue segurar meus dois braços com uma mão só. - Se não transar  acontece o quê?

- Sei lá, dá azar. É tipo uma noite de núpcias, sem a parte chata de desabotoar o vestido branco.

Ele  aproveita o espaço de barriga que a  blusa não teve competência de cobrir e coloca uma uva no meu umbigo. “Ui, tá gelada.” Tem um fiapo de tesão aparecendo em algum lugar. A câimbra no dedão começa a espalhar pro arco do pé. Dou uma olhada; a sola do meu pé está preta de sujeira.   E o dedão vai ficando num ângulo estranho.  Ele tenta pegar a uva com a boca, ô homem criativo. Respiro fundo.

- Olha. Eu devo estar pesando dois quilos a mais só de poeira. A gente tá cheirando a papelão e cimento. Tem graxa do caminhão embaixo das minhas unhas, e…

- Shhhhhh. - A língua dele tentando empurrar a uva. Não é muito original, mas ele sempre foi bom com a língua. - Quieta.
- É sério, é sério. Tudo dói. - A câimbra não passa, por mais que eu tente alongar o pé. Ele  consegue morder a uva

ploc

e uma gotinha gelada desce pela minha cintura.  Tem um sabiá cantando no cd. “Ou seria um pRintassilgo?” Eu rio de novo. Ele entende errado: acha que me animei, e me larga os pulsos.

-  E se a gente tomasse um banho? - Rolo de lado no colchão e fico de bruços. Uffffffff, a câimbra passou. Fecho os olhos. “Nossa, tô morta.” O meu corpo geme, mas tem algo no meu corpo que não é dor. - O banheiro ainda tá sem chuveiro, mas a gente toma um banho de cano. Suja assim, eu não relaxo e… aaiiii, essa lata tá gelada, rapá.

- Mas é uma matraca.  - ele rola a lata nas minhas costas.  Metade de mim geme por um banho, a outra metade por sono. Mas tem algo em mim que não geme, sussurra. Talvez com uma massagem antes? Talvez, o danado trouxe óleo de amêndoas mesmo. Talvez. - Quieta. Shhh. - ele rola a lata até a dobra dos joelhos. E então eu me lembro.

- Amor…  Eu pensei numa coisa agora… -Parte de mim é gemido, parte de mim é suspiro.

- Hum?

- Não fica zangado, vai. Mas eu pensei.

- Quê? - Abro os olhos. Fecho de novo.  - Fala, matraquinha. Que foi?
- Não encontrei ainda o abridor de lata.

Acho que acabou…

Janeiro 25, 2008

Não sei porque, tenho a impressão de que esse blog acabou. Tinha um carinho todo especial por ele, preparava histórias, mas…

Sei lá, acabou o tesão…

Talvez seja a falta de comentários…

Talvez a falta de tempo…

Ou de sexo…

Ou de leitores…

Mas o fato é q sinto cada vez menos vontade de escrever aqui…

Vou dar um tempo..

Vocês entendem?

Espero que sim

Até….

Vento

Janeiro 16, 2008

E víamos a luz da lua refletida no lago Paranoá, sobre o deck, quando molhávamos devagar os pés naquela água fria. Noite clara, pontuada de estrelas brilhantes, e lá longe a gente via um barco grande, cheio de luzes coloridas. Jovens se divertiam…

- De quê vc tem mais medo?

- De um dia ficar tão escuro que eu não consiga ver as suas mãos.

- …

- Ou quem sabe fique tão frio que eu esqueça seu calor…

- Amanhã vai ser foda…

- Eu sei… Despedidas são tristes.

- Mas essa vai ser a pior de todas.

- Ou não. Só queria prometer não chorar de novo…

- Mas não vamos conseguir…

- Não vamos…

- Então beije-me como se fosse a última vez e assim não vou poder esconder as lágrimas que saem dos meus olhos…

- Não há noite tão escura, nem vento tão frio como este…

- Toda a dor que existe incide na garganta e tapa o grito desesperado de dor.

- E espera o final, melodramático…

- Final de filme, de romance…

- Começo da solidão…

Conversa

Dezembro 29, 2007

Ela, ofegante sobre a cama, olha para o teto, meio tonta, quando nos separamos. Eu ainda estava excitadíssimo, mas ela exigiu uma pausa. Chovia lá fora e eu via as gotinhas de chuva descendo pelo vidro, se juntando e caindo rapidamente. Ela parou, recostou a cabeça no meu peito, depois encostou-se na cabeceira, olhando para mim fixamente. Olhava para meu pênis.

- Ahn…

- Constrangido?

- Um pouco..

- Posso te garantir que você não tem motivos.

Pegou uma taça de vinho pela metade sobre a cabeceira e bebeu rapidamente.

- É que…

- …

- Eu queria saber como é ter um…

- Não acho que seja nada demais.

- Ah, mas você fala isso porque tem, oras…

- E porquê você queria ter?

- Ah, pra sentir, sabe? Sentir o que vocês sentem..

- E que garantia você tem de que sentimos igual?

- Hum,  igual vocês não sentem, mas é diferente da gente…

- Diferente como?

- É mais rápido, vai, vai, vai, acaba e pronto, vocês ficam meio zoados…

- Ainda não vi vantagem…

- Sei lá, é o jeito que vocês pegam…

- ?????????????

Ela me pega pelo pênis com intensidade, mas sem força.

- Assim sabe?

Não consigo segurar o gemido…

Com a outra mão ela acaricia os meus testículos, segura com firmeza a base.

- Queria sentir o que você sente. Deve ser muito bom…

Essa carícia tava me deixando louco.

- Engraçado, também queria sentir outra coisa…

Com a ponta da língua, brinco com o mamilo, deixando-o enrijecido. Todo o corpo dela se contrai num gemido. Depois desço para a barriga. Ela me abraça com as pernas.

- A gente nunca tá satisfeito com o que tem, né?

- Nunca..

Fim do intervalo